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Hortelã Pimenta

Hortelã Pimenta

02
Jan18

Visitei o Alentejo da minha infância e foi assim...


Constança

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Este Verão, voltei a um lugar que é uma espécie de berço da minha pessoa. 

Algures, no Alentejo profundo, aquele que não tem água, é seco e tórrido, mas onde fiz tantos amigos, e onde vivem ainda os meus avós, que já morreram há muitos anos. É lá que me reencontro com eles.

A casa já não é nossa e está abandonada. Mas, embora não seja lá que durmo aquando das visitas, é para lá que vou sempre que regresso à Vila.

Este ano, resolvi levar lá a minha família durante uns dias. Ok, admito que não foi uma ideia muito atrativa para eles, mas mesmo assim insisti. Aquilo faz parte da minha história! Queria tanto que as minhas filhas vissem e estivessem naquele cantinho do mundo de que a mãe passa a vida a falar... 

Foi estranho para as miudas chegar a um síitio onde toda a gente trata a mãe por "tu", como se fosse uma gaiata da idade delas... e as pessoas muito, muito velhinhas a falarem dos meus avós, que elas nunca conheceram... A mim, aqueceu-me o coração. 

Entrar no café da vila, onde pessoas que elas nunca viram no meu circulo de amigos e conhecidos, se levantam e dirigem a mim falando como se eu tivesse novamente 8, 9, 10 ou 15 anos: "Então trouxeste a família?", "Que tens feito?"...

Depois de dar a tradicional voltinha para lhes mostrar o que se vê em cerca de meia-hora, vamos à vida normal, casa, almoço, piscina (para acalmar os 42ºC que se fazem sentir). Estranho... dizer bom dia a todos com quem nos cruzamos nas pequenas ruas!? E que ainda por cima me chamam pelo meu nome próprio, ou pela alcunha da família!!!

Para variar, enquanto vou por ali, e falo com o marido e filhas, a cada recanto que vejo, surgem imagens de pessoas, momentos, e ás vezes paro para olhar uma casa, que já não existe, num qualquer larguinho todo enfeitado com azulejos ou uma árvore. Ali já foi outra coisa. E sou despertada por um apelo desesperado: "Anda mamã! Que estás aí a fazer? Vamos para a piscina, está imenso calor!". "Sim, está. Vamos andando (sorriso)". E vamos, mas já vou de coração cheio.

Ao fim de um ou dois dias, tive de fazer aquilo que a minha alma pedia. Dar um passeio pela Vila, mas totalmente sózinha. Despachei todos para a piscina, e lá fui eu toda contente, alimentar o meu espirito, a minha pessoa, aquela que realmente fui, sou, conforme nasci.

Como é costume, por mais estranho que pareça a alguns, tenho por hábito sentar-me num local e, em silêncio, ver passar as imagens do que ali aconteceu. Vejo-as tão nitidamente, que mais parece um filme. Vejo tudo. Vejo-me a mim e aos outros. Vivos e mortos.

Estava eu sentada algures na rua quando olhei para a tal casa abandonada, que já tive como minha, e vi a rapariguinha a subir a rua com o pequeno saco de viagem ás costas. Vinha com um ar feliz, como que aliviada por ter finalmente chegado ao destino. A porta abriu-se e a minha avó chamou-a: Já aí vens? Anda que o jantar já está pronto. A rapariga olhou para mim e entrou. Fechou a porta. Ainda consegui sentir o cheiro das batatas fritas...

Ainda a vi no primeiro andar a abrir a janela e contemplar o campo que tinha à sua frente. Senti-a a respirar o ar puro, o cheiro da terra.

Ao fim de um bocado, a porta abre-se novamente e ela sai para ir ao encontro dos amigos, que sabendo da sua chegada, já a aguardavam ao fundo da rua. Saiu, e eu deixei-a ir.

Levantei-me, segui caminho em direção ao campo, à fonte que sai diretamente de uma refrescante nascente. Lá, encontrei novamente a mesma miúda. Desta vez, mais novinha, a beber a água que hoje em dia é imprópria para consumo, mas que é a mais refrescante que algum dia já provei, até hoje. Ela, e os outros putos que para ali andavam a correr e a apanhar amoras, tinham no rosto um ar de felicidade, tão ingénua e saudável, que não me lembrava ser possível, a não ser com um telemóvel novo, um tablet, uma Nintendo, ou outra treta mecânica qualquer.Sorri para eles e, com um calorzinho no coração, regressei à Vila.

Fui por outro caminho, e ao entrar na rua, quase levei com uma "bicla" desenfreada em cima! Caramba... lá ia a miuda, outra vez, tão pequena e sem medo de partir os dentes todos. Se fosse minha filha havia de levar um raspanete, ela e os outros que iam com ela. Olhei bem para mim, e até me doeram as (pequenas) canelas de tantas nódoas negras que tinham. Mas pareciam não doer nada, uma vez que andava a vêr se fazia mais umas quantas! Seguimos caminho, ela para um lado e eu para outro.

Ao regressar, passei novamente na minha casa. Está abandonada e velha outra vêz. Já nem as janelas estão fechadas. aproximei-me e toquei na janela do rés-do-chão, onde tantas vezes estive, só a olhar a calmaria da rua. A minha mão seguiu pela parede até à porta de entrada, sentiu a textura, sentiu as memórias que ali moram. Eu ainda passo ali muito tempo. Mas agora tinha de ir...

Desci a rua, olhei mais uma vez para trás. Vi a menina, sentada no degrau de entrada da porta, com as duas tranças a cair pelo vestido. Ainda consegui ouvir a minha avó chamar-me para dentro: "Anda! Agora à hora do calor não se pode estar aí fora!". E ela lá foi... a porta fechou-se e eu segui caminho pela rua abaixo para ir ao encontro da minha família.

Quando os encontrei ia feliz, o meu coração ia tão cheio, tão cheio... estáva enorme, mas não se via, sentia-se.    

Não compartilhei... talvêz um dia mais tarde. Para já, preciso ter estes cantinhos só meus.

14
Nov17

Ida ao cabeleireiro


Constança

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Ontem fui a um cabeleireiro na Rua de São Bento.

Morei nesta rua desde o meu nascimento, até ter completado 14 anos.

Até aqui tudo normal, não fosse ter morado na casa exatamente por cima do dito cabeleireiro. É um prédio pequeno com apenas quatro apartamentos, dois por andar.

Havia mais miudas da minha idade e, escusado será dizer que, a vida era maravilhosa: os pais iam trabalhar e, como só tinhamos aulas de manhã ou de tarde, resumidamente, passávamos o tempo na brincadeira...

Tinhamos um quintal com uma nespereira, uma parreira, um pessegueiro e muitas flores. Nos quintais circundantes, havia romãs, ameixas e laranjas. Todos os anos era uma verdadeira enxurrada de fruta da época!

Mas o melhor de tudo era estarmos sempre a trepar ás árvores e a saltar de uns quintais para os outros. Para irmos brincar com as vizinhas usávamos mais as árvores do que a porta da rua :))).

No quintal da casa ao lado da minha, havia uma espécie de varandim que dava para um saguão e que pertencia a um espaço comercial, que havia sido uma loja no rés-do-chão.

Tenho muito vagas lembranças de ter visto aquilo aberto e, por isso, devia ser mesmo muito pequena quando fechou.

Contávam-nos que tinha sido uma casa de máscaras e disfarces de carnaval.

Ás vezes, brincadeira puxa brincadeira, lembrávamo-nos de pendurar cordas nas grades e descer até lá abaixo. Lá, havia um tanque cheio de água acumulada da chuva, muito verde, e costumávamos ficar ali horas a ver uma espécie de girinos. Digo uma espécie porque, não faço ideia se podem nascer girinos em água parada.

E foi numa dessas tardes que resolvemos entrar na antiga loja de disfarçes de carnaval. As portas estavam meio abertas.

Aquilo era só lixo! Caixotes e mais caixotes com revistas e uns livrinhos que na altura achei muito giros. Eram Almanaques para donas de casa dos anos 50, 60 e 70. Não tinham fotos, mas como já na altura eu era uma apaixonada por desenho, sentei-me no chão sujo e deliciei-me a ver as ilustrações. Eram bonequinhas muito "coquetes", ora a tirar tabuleiros com bolinhos do forno, ora a mostrar sabonetes com uns nomes maravilhos, ora a maquilhar-se... os desenhos eram mesmo muito, muito giros.

Depois, alguma de nós se lembrou de vêr o que havia nos restantes caixotes amontoados pelo espaço abandonado.

Qual não foi o nosso espanto quando descobrimos que a lenda era real e as caixas estavam cheias de fatos de carnaval !

Ora, com 7 ou 8 anos, foi como descobrir um baú de piratas cheio de moedas de ouro. O maior tesouro alguma vez encontrado em todo o mundo...

Sabiamos, por conversas que ouviamos dos nossos pais, que os donos já tinham morrido há muitos anos, e que quem comprasse aquele espaço ia comprar também a grande maçada de deitar aquela tralha toda ao lixo. Imaginem: NO LIXO!!!

Não resistimos, e trouxemos um vestido para cada uma (Ok. não foi lá muito bonito, mas... ia tudo para o lixo!).

Eram vestidos de princesa, lembro-me dos três: um, era cor de rosa e com uma grande roda em tule, outro era branco, até aos pés e de acabamento assimétrico, e o terceiro era azul celeste, dentro do mesmo género.

Ainda hoje estranho o facto de não ter ideia de alguém nos ter questionado de onde veio aquilo. Mas como no início dos anos 80 era costume os miudos trocarem coisas entre si, penso que aí esteja a resposta.

Aqueles vestidos fizeram os nossos carnavais até deixarem de nos servir. Ás vezes voltávamos lá para ver se os bichinhos do tanque tinham crescido, e para ver o resto do tesouro da loja fantásma abandonada.

Hei-de agradecer toda a vida por nenhuma de nós ter caído por ali abaixo e ter-se partido toda!

Ontem, deitada na cadeira de massagens, com pratas por todo o cabelo e enquanto esperava pela lavagem, juro que vi três ou quatro miudas felizes a correr de um lado para o outro, a abrir caixotes, e a rir, rir, rir . Tão bem lhes reconheci o rosto.

E uma delas, sentada a um canto, junto a um caixote de livros, com ar observador e introspetivo, mas tão feliz sem o saber...

E eu, espectadora, por momentos deixei escapar alguns disfarçados sorrisos a estas meninas que só eu via. Corriam, riam e gritavam por entre os cabeleireiros atarefados sem que estes dessem por elas.

É por isso que tenho a certeza que as casas e lugares que viram muitas vidas, onde se passaram coisas boas e más, guardam essas memórias consigo. A energia desses momentos fica lá entranhada. 

Ninguém ali, ontem, podia sentir isto. Ninguém ali sabe as histórias boas que partilho com aquele lugar. Só eu.

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